O que a sabedoria popular brasileira pode ensinar para as Lideranças do C-Level?

Talvez por falar com sotaque até hoje, mesmo depois de quase quatro décadas vivendo no Brasil, aprendi cedo que compreender uma cultura exige mais escuta do que discurso. Como argentino que escolheu este país, sempre me chamou a atenção a força com que a sabedoria popular brasileira traduz realidades complexas em poucas palavras. Ditados que, longe de serem apenas expressões folclóricas, carregam leituras profundas sobre pessoas, escolhas e consequências, exatamente o território onde a liderança executiva opera todos os dias.

O Brasil é um país que aprende, decide e lidera por meio de histórias curtas. Ditados populares atravessam gerações porque condensam experiências reais da vida, especialmente sobre trabalho, relações humanas e tomada de decisão. Não surgiram em salas de Conselhos nem em MBAs, mas no cotidiano: na prática, no erro, na observação atenta da realidade. Para quem ocupa posições C-Level (com responsabilidade direta sobre estratégia, cultura, governança e resultados) esses ditados seguem sendo um convite direto: observar melhor a realidade antes de decidir sobre ela.

Não por acaso, muitos deles dialogam com dilemas centrais da agenda executiva: decisão sob incerteza, construção de cultura organizacional, coerência entre discurso e prática, gestão de riscos e exercício responsável do poder. Quando observados com atenção, revelam princípios atemporais sobre gestão de empresas e de pessoas especialmente relevantes para quem influencia o rumo da organização a partir do topo.

Antes do storytelling, a observação da realidade já criava mensagens impactantes.

Em tempos em que o storytelling ganhou status de competência estratégica presente em programas de liderança, conselhos de administração e narrativas institucionais, vale um resgate importante. Muito antes dessa linguagem ganhar nome, nossos pais e avós já compreendiam a força das mensagens originadas na observação cuidadosa da realidade.

Os ditados populares são, na essência, histórias destiladas. Para executivos C-Level, isso traz uma provocação relevante: antes de contar boas histórias para o mercado, para o Conselho ou para a organização, é preciso saber observar bem. Observar a dinâmica social ao redor da empresa, os sinais sutis da cultura, os comportamentos que são estimulados ou, apenas, tolerados e as tensões não ditas dentro das equipes. Em governança, a qualidade das decisões estratégicas está diretamente ligada à qualidade dessa leitura do ambiente ao redor.

Talvez o desafio contemporâneo não seja aprender a contar histórias mais sofisticadas, mas reaprender a enxergar a realidade com simplicidade suficiente para que a história se conte quase sozinha.

A seguir, alguns exemplos da relação entre Ditados Populares e suas mensagens para as Lideranças C-Level.

“Casa de ferreiro, espeto de pau”

À medida que a organização cresce, o risco da incoerência aumenta e ele começa, quase sempre, no topo. Esse ditado expõe um dos maiores pontos cegos do C-Level: o descompasso entre discurso institucional e prática executiva.

Empresas e Líderes que falam de pessoas, ética, diversidade ou inovação, mas não vivem esses valores internamente, enfraquecem sua própria integridade. Para quem ocupa cargos executivos, a pergunta é simples e incômoda: o que estamos comunicando externamente que não sustentamos internamente?

“Mais vale velho conhecido do que novo por conhecer”

Esse ditado introduz uma reflexão cada vez mais relevante sobre experiência, multigeração e memória organizacional. Em muitas empresas, a busca constante pelo “novo” acaba desvalorizando profissionais que conhecem profundamente o negócio, seus ciclos e suas crises.

Para o C-Level, o alerta é estratégico: inovação sem memória vira improviso. Profissionais experientes carregam conhecimento tácito, leitura de contexto e redes de relacionamento, todos eles ativos invisíveis, porém críticos. Valorizar equipes multigeracionais não é pauta social, é decisão de inteligência organizacional.

“Nem tudo que é novo é melhor”

Esse ditado permite abordar o tema do etarismo sem ideologia e com pragmatismo executivo. Ele não rejeita o novo, mas questiona o fascínio acrítico pela novidade.

Organizações lideradas com maturidade combinam energia, novas ideias e velocidade com experiência, prudência e capacidade de antecipar riscos. Quando o topo confunde juventude com inovação e experiência com resistência à mudança, erros conhecidos tendem a se repetir, agora com custos mais elevados.

“Cada macaco no seu galho”

Com o crescimento e o aumento da complexidade, entram em cena os temas de papéis, limites e accountabilities, centrais para a Governança. Esse ditado fala diretamente de estruturas decisórias claras.

Ambientes onde todos decidem tudo (ou onde ninguém decide nada), geram conflito e paralisia. Executivos maduros definem com clareza quem decide, quem executa, quem contribui e quem responde. Essa clareza não reduz autonomia; ela protege a organização e ao próprio C-Level.

“O barato sai caro”

Aqui surge um alerta clássico da agenda executiva. Pressão por margem, velocidade e entrega pode levar a atalhos: cortes mal desenhados, decisões míopes, fragilização de controles ou desgaste do capital humano.

Esse ditado lembra que escolhas de curto prazo frequentemente geram custos ocultos no médio e longo prazo, seja em reputação, risco jurídico, engajamento ou confiança do mercado… às vezes, inclusive alguns deles ou todos eles juntos!!. Governança existe justamente para evitar que o curto prazo comprometa o futuro.

“Torrada de pobre sempre cai com a manteiga para baixo”

Esse ditado traz uma leitura dura sobre assimetria de consequências. Em muitas organizações, falhas sistêmicas acabam recaindo sempre sobre os mesmos níveis e, portanto, raramente sobre quem desenhou as decisões.

Para o C-Level, a provocação é direta: sistemas frágeis produzem crises recorrentes; culturas punitivas produzem silêncio. Governança e Liderança madura criam estruturas que absorvem falhas, aprendem com elas e distribuem responsabilidades de forma justa.

“Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”

Por fim, entra a dimensão do tempo. Transformações culturais, estratégicas e de governança não acontecem rápido e, como consequência, exigem persistência do topo.

Esse ditado representa a liderança executiva resiliente, aquela que sustenta decisões impopulares, mantém coerência e ajusta a rota sem abandonar o propósito. Legado não se constrói com discursos brilhantes, mas com consistência ao longo dos ciclos.

“Liderar bem” é, nesse sentido, a capacidade de traduzir a observação em discurso eficaz (não sempre “inspiracional” mas às vezes, simplesmente, “o que têm que ser dito”) para ser rápida e inequivocamente entendido e funcionar como catalisador para as ações necessárias que os diversos profissionais de uma equipe ou organização devem realizar. Esse é o ponto de encontro da Sabedoria Popular, representada pelos ditados populares, e a Competência das Lideranças para comunicar.

A sabedoria popular brasileira não oferece soluções prontas, mas entrega algo essencial ao C-Level: bons critérios para pensar, decidir e sustentar escolhas. Ela obriga a olhar para a realidade como ela é, não como relatórios, apresentações ou narrativas gostariam que ela fosse.

Além disso, essas frases carregam um poder de influência social significativo. Por serem amplamente compartilhadas, funcionam como “atalhos cognitivos”: sintetizam ideias complexas, aceleram o entendimento comum e alinham discursos com rapidez.

Quando utilizadas de forma consciente e eficaz pelos líderes, tornam-se instrumentos de comunicação de alto impacto. E há um aspecto frequentemente subestimado:

Não por serem simples e populares perdem profundidade no conteúdo nem elegância no discurso. Ao contrário, ampliam clareza, reforçam cultura e dão humanidade às decisões que moldam organizações e legados.

Assim, nada contra o storytelling, mas muitas vezes me pergunto… por que criar ou adaptar histórias sofisticadas de episódios ou personalidades, em muitos casos, estrangeiras (aqueles quase super-heróis do mundo corporativo) ou ter que transformar as pequenas anedotas pessoais em histórias quase épicas de “superação”, se a Sabedoria Popular brasileira, através dos seus Ditados Populares, quase sempre nos presenteia com frases simples e poderosas que nos permitem “passar a mensagem” que tem que ser divulgada de forma simples, clara e, sobretudo… com brasilidade!!!

E você, amigo leitor que teve o interesse ou a persistência de chegar até aqui, como Executivo C-Level ou Conselheiro, qual ditado popular melhor descreve hoje a Cultura Organizacional que está sendo construída (não no discurso, mas na prática) na sua organização?

E para terminar…“Bola prá frente que atrás vem gente!!!”

Rolando Pelliccia, usuário frequentíssimo da expressão “como disse a sabedoria popular…”.