Uma reflexão sobre estratégia, sponsorship e o poder de um propósito simples.
Algumas histórias são tão improváveis que parecem ter sido escritas por um roteirista talentoso. Esta é uma delas.
Tudo começou com uma pergunta simples feita pelo influenciador argentino El Scarzo:
“E se tornássemos famoso o jogador menos famoso entre os classificados para a Copa do Mundo?”
Não era um plano de negócios. Não era uma estratégia de marketing. Não era uma campanha patrocinada por uma grande marca.
Era apenas uma pergunta. Mas perguntas têm poder. Especialmente quando carregam um propósito capaz de mobilizar pessoas.
A partir daquela provocação, milhões de pessoas passaram a seguir Tim Payne, jogador da seleção da Nova Zelândia que, até então, era praticamente desconhecido fora dos círculos mais próximos ao futebol de seu país. Em poucas semanas, seu número de seguidores explodiu, transformando-o em um fenômeno global das redes sociais.
O fato em si é curioso. Mas o que realmente me interessa, como consultor que trabalha com organizações, lideranças e carreiras, é o que essa história revela sobre a forma como o sucesso acontece. Porque, por trás do fenômeno digital, existe uma poderosa lição sobre estratégia, desenvolvimento e influência.
O planejamento continua importante. Mas não da forma que imaginamos.
Executivos constroem planos de carreira. Empresas constroem planejamentos estratégicos. Empreendedores desenham cenários para os próximos anos. E todos fazemos isso porque precisamos de direção.
O problema surge quando confundimos direção com previsão.
Há décadas, Igor Ansoff, considerado um dos pais da estratégia corporativa, argumentava que “o principal desafio dos gestores não era prever o futuro, mas preparar as organizações para responder a ambientes cada vez mais turbulentos”. Anos depois, Michael Porter reforçou a ideia de que “estratégia não é um exercício de adivinhação, mas um conjunto de escolhas conscientes sobre onde competir e como vencer”.
Talvez por isso um dos maiores equívocos do mundo corporativo seja acreditar que um bom planejamento elimina a incerteza. Ele não elimina. Ele “apenas” aumenta nossa capacidade de navegar por ela.
Quando observamos o fenômeno Tim Payne, percebemos algo interessante: ninguém poderia ter previsto exatamente o que aconteceu.
Nenhum planejamento razoável teria incluído um cenário em que milhões de pessoas decidiriam seguir espontaneamente um jogador praticamente desconhecido da Nova Zelândia. Mas, existe uma diferença importante entre prever um evento e estar preparado para aproveitá-lo. Quase nenhuma grande transformação acontece exatamente da maneira como foi planejada.
Os acontecimentos mais relevantes de uma carreira costumam surgir de oportunidades inesperadas: a promoção não prevista, o cliente que apareceu por indicação, o projeto que ninguém queria assumir, o encontro fortuito que muda uma trajetória…
O planejamento não serve para eliminar a incerteza. Serve para que estejamos preparados quando a incerteza produzir uma oportunidade.
E talvez essa seja a primeira grande lição do “Efeito Tim Payne”: o sucesso não acontece porque alguém previu o futuro. Acontece porque alguém estava pronto quando uma oportunidade improvável surgiu.
Ninguém constrói uma trajetória sozinho
Há outro aspecto fascinante nesse caso.
Tim Payne não decidiu sozinho tornar-se um fenômeno. Alguém enxergou nele uma possibilidade. Alguém criou uma ponte. Alguém lhe deu visibilidade.
Nas organizações, falamos muito sobre desempenho e competência. Falamos menos sobre algo igualmente importante: exposição.
Ao longo dos anos, acompanhei profissionais extremamente talentosos que permaneceram invisíveis. Não lhes faltava competência. Faltava alguém que apostasse neles. Alguém que lhes abrisse uma porta. Alguém que amplificasse sua presença.
Em liderança, chamamos isso de sponsorship.
É diferente de mentoria. O mentor aconselha. O sponsor utiliza sua influência para criar oportunidades.
Quando observamos grandes trajetórias profissionais, quase sempre encontramos alguém que desempenhou esse papel. Seja um chefe generoso, um sócio mais experimentado, um cliente encantado, um professor dedicado ou um mentor influente. Ou, neste caso, diretamente um influenciador.
O mérito continua sendo importante. Mas raramente é suficiente por si só.
A história de Tim Payne nos lembra que oportunidades extraordinárias costumam surgir quando alguém decide investir sua credibilidade para ampliar a visibilidade de outra pessoa. E essa é uma responsabilidade que líderes verdadeiramente relevantes para as pessoas que com eles trabalham, assumem com generosidade e uma certa dose de coragem.
O que realmente mobilizou milhões de pessoas?
Talvez o aspecto mais interessante dessa história seja que ninguém foi convocado a seguir Tim Payne. Não havia obrigação nem recompensa. Não havia benefício individual evidente. Mesmo assim, milhões participaram.
Por quê? Porque…
… as pessoas não se mobilizam por tarefas. Elas se mobilizam por causas. Elas se mobilizam por histórias. Elas se mobilizam por significado.
A genialidade da pergunta de El Scarzo não estava na sua complexidade. Estava justamente na simplicidade.
“E se tornássemos famoso o jogador menos famoso entre os classificados para a Copa do Mundo?”
De repente, existia uma missão. Uma narrativa. Um propósito coletivo. Uma causa suficientemente clara para que qualquer pessoa pudesse entendê-la em poucos segundos e participar imediatamente.
Esse é um dos maiores ensinamentos para empresas e líderes.
Muitas organizações passam meses discutindo estratégia e poucos minutos discutindo significado.
Definem metas detalhadas e indicadores sofisticados a serem atingidos mediante processos rigorosos. Mas deixam sem resposta a pergunta mais importante de todas: Por que alguém deveria se importar com isso?
Quando essa pergunta permanece sem resposta, surgem colaboradores que cumprem tarefas, mas não se engajam. Quando ela é respondida de forma convincente, surgem pessoas dispostas a fazer muito mais do que o mínimo necessário.
O propósito não precisa ser grandioso
Existe ainda uma segunda lição. Durante anos, o mundo corporativo criou a ideia de que propósito precisa ser algo monumental. “Mudar o mundo”, “Transformar a sociedade”, “Reinventar o futuro”, ou alguma variação parecida se tornaram lemas corporativos frequentes.
Mas o caso Tim Payne mostra algo diferente. O propósito precisa ser, antes de tudo, compreensível. Ele precisa ser concreto e, também, precisa ser compartilhável (nesta ultima condição as redes sociais são uma ferramenta fundamental). Em definitiva, as pessoas precisam conseguir explicá-lo facilmente para outras pessoas.
Foi exatamente isso que aconteceu. Todos entenderam a missão. Todos souberam qual era o objetivo. Todos souberam como contribuir. E justamente por isso o movimento ganhou escala.
Nas organizações acontece o mesmo. Os propósitos mais mobilizadores nem sempre são os mais grandiosos. Frequentemente são os mais claros.
O verdadeiro “Efeito Tim Payne”
Talvez o verdadeiro “Efeito Tim Payne” não seja o crescimento extraordinário de seguidores. Talvez seja a demonstração prática de algo que consultores, líderes e executivos frequentemente esquecem.
Trajetórias relevantes são construídas pela convergência de três fatores:
Preparação, para estar pronto.
Oportunidade, para ser visto.
Propósito, para mobilizar pessoas.
Quando um desses elementos falta, o crescimento tende a ser limitado. Quando os três se encontram, acontecem fenômenos que parecem improváveis.
Nas empresas, chamamos isso de transformação. Nas carreiras, chamamos isso de aceleração. Nas redes sociais, chamamos isso de viralização.
Mas, no fundo, estamos falando da mesma coisa: pessoas que encontraram uma causa, alguém que lhes abriu uma porta e uma oportunidade para construir algo maior do que elas próprias.
O “Efeito Tim Payne” nos lembra que grandes trajetórias raramente são fruto apenas de planejamento, apenas de oportunidade ou apenas de propósito.
Elas nascem quando uma pessoa preparada encontra alguém disposto a abrir uma porta e uma causa capaz de mobilizar outras pessoas.
Porque, no final, o sucesso não pertence apenas aos que planejam. Pertence aos que se preparam. Não pertence apenas aos que recebem oportunidades. Pertence aos que sabem aproveitá-las. E não pertence apenas aos que têm objetivos. Pertence aos que conseguem transformar esses objetivos em uma narrativa capaz de inspirar outras pessoas.
Talvez seja exatamente por isso que essa história tenha chamado tanta atenção. Porque, de certa forma, todos nós gostaríamos de acreditar que existe um Tim Payne escondido dentro de cada organização, dentro de cada equipe e dentro de cada carreira, esperando apenas a combinação certa de preparação, oportunidade e propósito para revelar seu potencial.
P.S.: Hoje eu também faço parte desse fenômeno e sigo Tim Payne no Instagram: @timpayne__.