O que o Tetris tem a ver com Liderança?

Uma confissão inicial rápida: eu gosto de jogar Tetris. Gosto mesmo. Não como nostalgia vazia, mas como exercício de atenção, disciplina e tomada de decisão sob pressão. E as férias foram um período ideal para praticar esse hobby, ao mesmo tempo relaxante e estressante… Muitas das reflexões que compartilho a seguir nasceram enquanto jogava, entre a queda ou a aparição de uma peça ou outra, quando me peguei pensando mais em liderança do que no próprio jogo. Fazer o que… a paixão nos acompanha até durante as férias!!!

 

Voltar das férias em geral, mas voltar delas em 2026 em particular se parece muito com passar para um novo nível do jogo. A música acelera, as peças caem mais rápido e o espaço para erro diminui.

Pressões simultâneas de tecnologia, geopolítica, inteligência artificial e o seu uso responsável, nova escassez de talentos e tendencias sociais (instaladas ou emergentes) com as suas consequentes expectativas fazem com que as “telas de jogo” organizacionais estejam bastante cheias desde o início. Não começamos o ano com o tabuleiro limpo; começamos com linhas já parcialmente preenchidas.

Poucos jogos atravessaram tantas gerações quanto o Tetris. Criado em 1984 pelo engenheiro russo Alexey Pajitnov, o jogo nasceu quase como um experimento matemático sobre formas geométricas em movimento. O que começou como um passatempo em um computador soviético acabou se tornando um dos produtos culturais mais universais da história digital, presente em consoles, celulares e até em pesquisas científicas sobre cognição. No centro dessa experiência está uma figura curiosa: o “Jojo” (ou, para os entendidos, o I-tetromino), que aparece de forma imprevisível e que, dependendo do momento, pode salvar o jogo ou acelerar o desastre. Ela é a peça mais valiosa do jogo porque é a única capaz de limpar quatro linhas de uma vez (o famoso Tetris) quando usada num espaço preparado, o que lhe dá um efeito quase salvador quando aparece.

Quem já jogou Tetris sabe que o “Jojo” provoca uma reação quase visceral. Quando ele chega no momento certo, resolve vários problemas de uma vez. Quando chega no momento errado, cria um dilema: usar agora e desperdiçar potencial, ou segurar esperando uma oportunidade melhor e correr o risco de perder o controle do jogo. Essa tensão é uma metáfora poderosa para a vida de quem lidera organizações, equipes e sistemas complexos, especialmente em um ano em que parece que tudo acontecerá ao mesmo tempo.

Na liderança, o “Jojo” (essa peça potencialmente “salvadora da situação”) se manifesta como aquelas decisões realmente relevantes, de alto impacto, que não aparecem todos os dias: uma promoção-chave, uma mudança de estrutura, a entrada ou a saída de um executivo, uma aposta estratégica. Não são movimentos rotineiros e, portanto, requerem o uso das “peças valiosas”, como os “Jojos”. O problema, no entanto, é que, em ambientes pressionados como os que esperamos para 2026, muitos líderes poderão tratar os seus “Jojos” como se fossem apenas mais um bloquinho qualquer, encaixando-os no primeiro espaço disponível para aliviar a ansiedade do curto prazo.

O maior risco do ano que está começando não é a falta de peças, mas o desperdício de “Jojos”. Organizações inteiras gastarão “energia estratégica” tentando corrigir problemas operacionais crônicos. Vão trocar pessoas quando deveriam trocar sistemas. Vão redesenhar estruturas como resposta isolada quando deveriam trabalhar cultura e processos de forma concomitante. É o equivalente organizacional de usar uma peça rara para compensar um erro de encaixe que poderia ter sido resolvido com algo muito mais simples.

Bons jogadores de Tetris sabem que o “Jojo” deve ser preservado. Eles criam espaço, suportam um pouco mais de caos temporário e resistem à tentação de resolver pequenos problemas com uma peça que foi feita para resolver grandes problemas. Bons líderes fazem exatamente a mesma coisa. Eles não usam seu capital político, seu prestigio pessoal, sua autoridade ou suas grandes decisões para apagar incêndios triviais. Eles preservam esses recursos para os momentos em que uma ação realmente muda o jogo.

Aqui entra uma competência que será decisiva em 2026: a capacidade de criar espaço antes de agir. Espaço de conversa, espaço de alinhamento, espaço de leitura do contexto. No Tetris, você só consegue usar bem um “Jojo” se preparou o tabuleiro. Na liderança, você só consegue fazer uma grande jogada se construiu, previamente, a base cultural, política e relacional que a sustenta.

 

Isso se conecta, no meu modo de ver, a uma competência central da liderança moderna: a gestão da tensão. Liderar não é manter a tela do jogo sempre limpa; é tolerar níveis saudáveis de desorganização enquanto se constrói uma solução mais robusta. Organizações que eliminam todo desconforto rapidamente tendem a ficar reféns de soluções de curto prazo. Da mesma forma que no Tetris, quando você limpa linhas únicas o tempo todo, o jogo acelera e fica cada vez mais difícil de controlar.

Outro aspecto crítico do “Jojo” é o timing. Não basta ter a peça certa; é preciso colocá-la no momento certo. Em liderança, isso se traduz na leitura de contexto: clima político, maturidade da equipe, saúde financeira, prontidão cultural. Em 2026, quando todo faz prever que ambiente mudará rápido demais, erros de timing custarão mais caro do que nunca. Decisões estratégicas tomadas cedo demais ou tarde demais têm o mesmo efeito de um “Jojo” mal posicionado: criam mais problemas dos que resolvem.

Talvez por isso o ano 2026 exigirá menos reatividade e mais arquitetura. Menos movimentos desesperados e mais desenho consciente do jogo. Menos líderes apagando incêndios e mais líderes projetando sistemas capazes de absorver choques.

Por fim, há um ponto quase filosófico. O Tetris nunca termina; ele apenas fica mais rápido até você perder… ou passar para o próximo nível, onde tudo começa novamente. A liderança também não tem “linha final”. O papel do líder não é apagar linhas achando que com isso está vencendo o jogo, mas sustentar o sistema em funcionamento por mais tempo, com qualidade, coerência e impacto. O “Jojo”, nesse sentido, não é uma solução mágica, mas um recurso precioso que precisa ser usado com discernimento.

Talvez uma das perguntas mais relevantes para começar 2026 seja esta: estou usando meus “Jojos” para aliviar a ansiedade do presente ou para construir a capacidade do futuro?

 

E você, olhando para o seu time ou para a sua organização hoje: quais “Jojos” está guardando para o momento oportuno e quais está desperdiçando sem perceber?

 

Observação final: No Tetris não existe oficialmente uma peça chamada “Jojo”, esse é um apelido popular, usado em alguns países e comunidades de jogadores, para a peça vertical reta de 4 espaços.